quarta-feira, 12 de maio de 2010

OLHEIRAS: Reflexões sobre produção cinematográfica e educação

OLHEIRAS: Reflexões sobre produção cinematográfica e educação

Reflexões sobre produção cinematográfica e educação

Na reunião do dia 17 de abril tivemos apresentação do projeto de produção de Julyana Troia sobre Lampião

A apresentação de Julyana Troia acorreu a partir de um pedido meu depois que eu fiz apresentação do projeto temático de pesquisa Linguagem e Arte Cinematográfica na educação – Memória, Imaginação e Tecnologia no dia 27 de março de 2010.

O objetivo de convidar Julyana para falar de seu trabalho foi fazer com que o grupo pudesse entrar em contato com um processo de criação de um filme.

Logo depois da reunião do dia 27 de março, eu e o Carlos Lopes fomos à produtora “Mídia Educativa” de Julyana para conhecer as instalações e para conversamos sobre um desafio muito grande de todos nós que estamos envolvidos com a relação entre vídeo e educação ou entre cinema e educação – como oferecer este conhecimento de produção de cinema para as pessoas da educação.

Este trabalho tem sido através de oficinas que ensinam, em geral, a parte logística, o planejamento e a técnica de produção. Achamos válido este trabalho, pois contamina a escola ou a educação com cinema, mas a educação carece de uma relação com a linguagem cinematográfica que vá além do caráter instrumental da linguagem – ensinar a fazer. Há necessidade de se pensar um saber fazer que seja acompanhado de referências culturais, pela paixão e pelo caráter artístico da produção em imagens e sons em movimento.

Bem, parece que Julyana compartilha conosco esta ausência, este algo mais que se quer da relação entre cinema e educação. Ela, então se dispôs a apresentar como está sendo seu processo de produção com este projeto sobre Lampião.

Em sua apresentação de slides Julyana dispôs as 6 fases do trabalho que realiza para uma produção de um filme: Pesquisa, Roteiro, Pré-produção, Produção, Edição, Pós-produção.

Não saímos do tema da pesquisa, pois este gerou inúmeras questões que despertaram a curiosidade e a reflexão do grupo.

Reproduzo de forma esquemática o slide sobre a pesquisa para a produção que Julyana nos apresentou:

• Pesquisa Bibliográfica
• Fontes: jornais, rádios e TVs, acervos históricos, museus, etc.
• História Oral – Personagens que fizeram parte da história
• Visões técnicas do conteúdo – profissionais da área
• Outras obras já realizadas
• Conhecer o público

Diante do volume de informações que Julyana coletou em sua recente viagem a Mossoró no Rio Grande do Norte perguntei: quando e como você decide parar de coletar informações e parte para a elaboração do roteiro?

Sua resposta foi mais ou menos esta: quando eu percebo que construí meu objetivo em relação ao filme.

Esta informação me fez pensar na relação entre a produção de um filme e a produção de um trabalho educacional. Para Julyana a construção do objetivo se dá no processo de coleta de informações sobre o tema da obra, ou seja, durante a pesquisa. Na educação, apesar de todas as críticas à educação por objetivos que, se não estou enganado, remonta a educação instrucional, os educadores ainda pensam o começo do seu trabalho como sendo a definição dos objetivos.

Há uma lógica no mundo da educação que diz que todo o processo de construção de um programa educacional ou de ensino deva começar pela definição do perfil do aluno que se quer formar e depois dos objetivos que visam atingir esta formação. Bem, sem entrar no mérito teórico de que esta lógica parte de uma idealização (muitas vezes justificada por uma leitura, às vezes crítica, da realidade, do contexto social, histórico, econômico e cultural), a lógica da constituição de um perfil de formação normalmente cai numa abstração, ou seja, objetivos previamente definidos. Os objetivos são definidos antes de conhecer os sujeitos que estarão envolvidos no trabalho educacional e de se analisar a situação em que este trabalho ocorrerá.

Em poucas palavras, o processo de criação (fílmica) tende a definição de objetivos dentro do processo de pesquisa, sendo que o processo educacional tende a partir dos objetivos para criar o processo de ensino.

Claro que sabemos que o processo de produção fílmica industrial tende a definição prévia de objetivos e que o processo de criação, na maioria das vezes deve entrar em conflito com este caminho de criação apresentado por Julyana. Porém isso só demonstra o quando a educação está permeada pela produção e forma de organização do trabalho industrial.

Ariadne fez, então, uma distinção entre o trabalho de pesquisa na universidade e o trabalho de pesquisa numa produção cinematográfica. O primeiro seria mais individualizado e o segundo seria mais coletivo, ou, pelo menos, os créditos do trabalho de criação cinematográfica são mais coletivizados.

Penso que apesar da validade da distinção (idéia que já tinha me contaminado algumas vezes), esta idéia não é tão clara como se poderia pensar. Há muita discussão sobre o caráter coletivo do processo de produção e principalmente sobre o processo de criação fílmica. Alguns defendem que não há trabalho coletivo no cinema, mas sim trabalho em equipe e, muitas vezes este trabalho está dividido de tal forma que se assemelha a divisão processo do trabalho da indústria. Aliás, é por isso que o cinema é tido como uma indústria. Por outro lado, a produção da pesquisa acadêmica e científica (mestrado e doutorado inclusive) se discute que ela não deveria é isolada e que a própria idéia de revisão bibliográfica traz uma dimensão de inserção do trabalho numa coletividade.

Apesar destas considerações me parece que na educação, e por extensão na pesquisa educacional (e poderíamos dizer na pesquisa em ciências humanas) há muito preconceito e resistência ao trabalho em equipe. A divisão do trabalho na pesquisa é sempre reduzida à divisão do processo de trabalho fabril ou industrial. Não há necessidade de pensarmos radicalmente assim. Os processos de produção e criação que Julyana nos traz e que se inserem dentro de um sistema comercial de produção, nos fazem pensar que nós, da educação, ainda temos o que aprender com este tipo de organização de produção e criação.

Na verdade, talvez aqui se pudesse fazer a defesa da Pedagogia da criação de Bergala. Se a educação voltar-se para o processo de criação e não se restringir ao processo de transmissão ela será mais facilmente permeada pela idéia de equipe ou de coletivo (em minha opinião idéias que são mais férteis do que as de interdisciplinaridade).

Carlos Lopes fez uma observação de contexto que deixou estas reflexões em suspenso. Lembrou-nos de que uma dos procedimentos que sustentam a individualização do trabalho educacional e de pesquisa é a forma de avaliação do mérito individual. Não há uma cultura de valorização de mérito coletivo. Fiquei pensando que mesmo avaliações institucionais de programas e unidades são, ao que me parece, calcada em soma das avaliações individuais dos sujeitos envolvidos no trabalho da instituição.

A partir de um determinado momento, nós questionamos muito Julyana sobre seu processo de valorização da pré-produção e, principalmente, do processo de pesquisa. Julyana sinteticamente destingiu três fases de sua formação como realizadora. Um momento anterior à sua formação profissional, quando adolescente, em que criar se confundia com mexer câmera e gravar diversos acontecimentos e situações. Um segundo momento, durante sua formação profissional no curso de jornalismo em que ela começa a ser obrigada a seguir os passos técnicos de uma produção. E, um terceiro momento, em que a valorização da pré-produção já está consolidada em sua forma de produzir, ou seja, o momento atual.

Perguntada quando ela começou a valorizar a pré-produção, principalmente o momento da pesquisa, Julyana respondeu que isso começou a acontecer no momento da sua formação profissional, mas que de fato se consolidou quando ela começou a ensinar a produzir filmes. Ou seja, a passagem do simples mexer na câmera para a valorização de seguir os procedimentos do processo de criação deu-se quando ela se viu na tarefa de ensinar a produzir.

Julyana acrescentou um aspecto importante em sua prática de trabalho com sua equipe. Ela disse que se preocupa envolver toda a equipe com a história e com o tema que está produzindo. Procura levar a história para todos da equipe.

Eduardo perguntou à Julyana sobre assumir um ponto de vista em relação ao tema que está sendo abordado na produção de um filme e a preocupação quanto ao objetivo desta produção estimular uma reflexão.

Questionou-se ainda sobre como se chega à proposta de estimular uma reflexão num filme. Em que momento começa a vontade de querer transmitir uma mensagem? Isto tem a ver com o assunto? Como surge a vontade de um indivíduo querer mostrar algo para os para outros?

Penso que estas questões têm duas dimensões. Uma é querer transmitir uma mensagem por julgar importante que os outros tenham acesso a esta mensagem e reflitam sobre ela. Isto tem mais a ver com querer mostrar alguma coisa aos outros. A outra é querer expressar algo através do cinema. Algo que se pensa sobre o tema, ou sobre um assunto. Ou seja, um desejo de querer mostrar algo, de uma determinada maneira, que julga ser importante para si mesmo.

Houve uma reflexão sobre o jovem contemporâneo e sobre nossos desejos e sentimentos na juventude. Falou-se de uma idade em que não há preocupação com o outro, não há preocupação com a busca do conhecimento do outro. Apesar de certa concordância com esta radiografia das relações sociais, nos perguntamos se esta não seria uma visão centrada na posição do adulto. Os jovens não têm ideais? Estes idéias não envolvem o outro? O bem estar comum e a preocupação com os relacionamentos?

Ariadne fez uma interessante observação sobre a fase em que o jovem ou o adolescente começa a mexer com a câmera. Penso que, sua observação, no entanto, não se restringe ao jovem ou adolescente, pois abrande uma forma social de relação do homem com a tecnologia. Ariadne ressaltou o caráter narcísico da forma como os adolescentes e jovens lidam com a câmera, como se fossem uma extensão do próprio eu.

A tecnologia como extensão do próprio eu é um tema interessante de estudo e já há alguma bibliografia sobre isso. Esta bibliografia aponta prós e contras. Há uma diferença entre abordar a tecnologia como extensão do próprio eu e a tecnologia como extensão do próprio corpo. Mas para a educação talvez as duas coisas devam ser pensadas juntas. Seria uma forma de pensar numa foram de amadurecimento pensar que o indivíduo parte de uma relação da tecnologia como extensão do eu para uma relação da tecnologia com extensão do corpo? A minimização do narcisismo em relação à câmera (a em relação aos artefatos tecnológicos de maneira geral) seria um trabalho de responsabilidade da educação, da escola, do professor?

O perigo da abordagem desta questão talvez esteja em dar um sentido moral para esta forma de relação entre o homem e a tecnologia (em particular a câmera filmadora –esteja ela onde estiver – celular, por exemplo).

Para a superação do estado narcísico do homem com a tecnologia haveria a necessidade de se criar formas de trabalho e de produção que promovessem um sentido de interlocução entre os sujeitos envolvidos num processo de produção – seja mexer na câmera ou fazer uma produção completa.

Talvez precisemos estudar mais estas questões. Dentre várias referencias que precisemos buscar está à compreensão da relação do homem com a tecnologia do ponto de vista filosófico, psíquico e social , uma melhor compreensão do mito de narciso, o entendimento do professor como interlocutor .