segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sobre o mito, a lenda, os símbolos

Oi gente.

Desculpe bombardear vocês. É só mais este. Eu fiquei pensando sobre o uso das simbologias dos personagens lendários fantásticos - cuca, bicho papão. Em verdade, depois das pesquisas, conclui que quaisquer um destes têm como significado essencial 'o mal', 'o desconhecido', 'a ignorância', 'os fantasmas que nos perseguem', 'o velho e feio' - tudo que dá medo, adequando-se a figura em cada cultura. E fiquei pensando, como sugeriu nossa mestra Gisele, sobre o significado, o sentido destas simbologias, destes mitos, sejam eles "relidos na modernidade" ou não. Fui pesquisar algo sobre os mitos e me deparei com a obra do J.Campbell, O poder do mito (veja trecho abaixo).

Em verdade, nunca havia tido motivação de ler, mas pensei que seria o momento. E encontrei a seguinte passagem que me pareceu bastante esclarecedora. A questão que fica é: se os mitos educam, se os símbolos são usados para transcendência, para que as pessoas reflitam sobre sua própria existência - como no vídeo da Matinta Perera do RJ (em que há uma transformação) - que significado daremos a estes símbolos? Quero dizer, a Cuca e o Bicho Papão habitam a memória coletiva, o que podemos aproveitar destas duas figuras para a nossa história? porque se a "lição" vai estar relacionada à questão "beleza", 'ser você mesmo também é bom', talvez os personagens não precisem ser estes. Não sei, é uma reflexão que coloco 'na roda'.
beijos...

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MOYERS: Através da leitura de seus livros – The Masks of God e The Hero with a
Thousand Faces – vim a compreender que aquilo que os seres humanos têm em comum se
revela nos mitos. Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação, através dos tempos. Todos nós precisamos contar nossa história, compreender nossa história. Todos nós precisamos compreender a morte e enfrentar a morte, e todos nós precisamos de ajuda em nossa passagem do nascimento à vida e depois à morte. Precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar o eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos.

CAMPBELL: Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que
seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.
MOYERS: Mitos são pistas?
CAMPBELL: Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.
MOYERS: Aquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente?
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Você mudou a definição de mito, de busca de sentido para experiência de
sentido.
CAMPBELL: Experiência de vida. A mente se ocupa do sentido. Qual é o sentido de uma
flor? Há uma história zen sobre um sermão do Buda, em que este simplesmente colheu uma
flor. Houve apenas um homem que demonstrou, pelo olhar, ter compreendido o que o Buda
pretendera mostrar. Pois bem, o próprio Buda é chamado “aquele que assim chegou”. Não
faz sentido. Qual é o sentido do universo? Qual é o sentido de uma pulga? Está exatamente ali. É isso. E o seu próprio sentido é que você está aí. Estamos tão empenhados em realizar determinados feitos, com o propósito de atingir objetivos de um outro valor, que nos esquecemos de que o valor genuíno, o prodígio de estar vivo, é o que de fato conta.
MOYERS: Como chegar a essa experiência?
CAMPBELL: Lendo mitos. Eles ensinam que você pode se voltar para dentro, e você
começa a captar a mensagem dos símbolos. Leia mitos de outros povos, não os da sua
própria religião, porque você tenderá a interpretar sua própria religião em termos de fatos – mas lendo os mitos alheios você começa a captar a mensagem. O mito o ajuda a colocar sua mente em contato com essa experiência de estar vivo. Ele lhe diz o que a experiência é.
Casamento, por exemplo. O que é o casamento? O mito lhe dirá o que é o casamento. E a
reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no
mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É
diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico deexperiência. Quando pessoas se casam porque pensam que se trata de um caso amoroso
duradouro, divorciam se logo, porque todos os casos de amor terminam em decepção. Mas
o matrimônio é o reconhecimento de uma identidade espiritual. Se levamos uma vida
adequada, se a nossa mente manifesta as qualidades certas em relação à pessoa do sexo
oposto, encontramos nossa contraparte masculina ou feminina adequada. Mas se nos
deixarmos distrair por certos interesses sensuais, iremos desposar a pessoa errada.
Desposando a pessoa certa, reconstruímos a imagem do Deus encarnado, e isso é que é o
casamento.

Um comentário:

Gabi Rigotti disse...

É, Aline... Você tem se aprofunhdado no assunto mesmo, não? Que bom, fico bem entusiasmada também! Concordo com sua visão de que estes personagens encarnariam, em sua gênese, o mal e que, se tomarmos sob esta perspectiva, nossa história singela poderia optar por outras figuras. Mas aí pergunto: apesar de embasadas em figuras mitológicas que encarnaram o mal, a Cuca e o Bicho Papão ainda trazem o medo às nossas crianças? Esse mito da figura maléfica ainda está mesmo encarnado nestas personagens? Como conversamos na aula do dia 16, acredito que não; creio que estas figuras, em nossa sociedade brasileira contemporânea, perderam seu elo com estes seres mitológicos maléficos, hoje encarnados em outros seres. Por isso gostei tanto da parte de nosso roteiro que traz a Cuca saudosista! rsrs Ao contrário da Matinta Perera, mito ainda atualizado no interior de nosso país, a Cuca e Bicho Papão, ao meu ver, viraram personagens caricatos e risonhos, não acha? Ficaram, para mim, uma Cuca e um Bicho Papão meio com cara de "Monstros S.A.", sabe? Daqueles que também são gente e, como tais, não podem ser só bons ou só ruins... Os mitos maléficos sem dúvida ainda existem, mas no aqui e agora não os vejo mais nem na Cuca nem no Bicho Papão. E você o que acha? Como repensaria nossa história? Beijos e falamos mais sobre isso até sábado!